Área de Conhecimento

Nesta secção há o compartilhamento de artigos, textos, opiniões e ideias sobre assuntos que envolvem a nossa sociedade como um todo de forma a permitir o desenvolvimento de uma opinião crítica principalmente sobre situações que envolvem o nosso dia a dia, não apenas como pessoas, em nossas relações mais próximas, bem como aquelas interações profissionais.

Fidelidade é tudo

Fidelidade é a mais importante obrigação de um vassalo. É mais importante do que destinar parte da produção para o suserano, nominalmente o dono do meio de produção. O sistema feudal com essa característica se desenvolveu na Europa medieval e atingiu o seu auge por volta do século 12. Suserania e vassalagem funcionavam como um grande edifício. Começava com o suserano mor, o rei  ou imperador, e se estendia até o mais  humilde servo da gleba. Os vilões, moradores dos burgos, conseguiam comprar sua liberdade. Imperava o regime da servidão. A atuação do servo estava restrita ao pedaço de terra que lhe era destinado para cultivar e criar alguns animais, quanto muito,e ficava nos limites da propriedade, conhecida como feudo. Não  interessava ao senhor feudal que ele tivesse contato com viajantes, comerciantes ou estrangeiros que pudessem contaminá-los com idéias exóticas, que poderiam por o sistema em risco. Portanto o feudo, as pessoas, deveriam se bastar a si mesmos. O mundo era o feudo. O senhor feudal, por sua vez prestava vassalagem ao seu superior, que recebia ordens do rei. Era uma estrutura regida  de cima para baixo e a desobediência era punida severamente, até mesmo com a morte. Todos preferiam o imobilismo, uma situação confortável para os poderosos e suportável para os miseráveis. Em nada um sistema como esse poderia se confundir com o sistema capitalista dinâmico, voraz, desestabilizador, criativo e acumulador de fortunas em ouro, prata ou terras. Contudo foi das entranhas do feudalismo que o capitalismo nasceu. As contradições internas do sistema feudal deram origem às primeiras manifestações do capitalismo primitivo na Europa. 

É inimaginável pensar que uma estrutura semelhante a essa pudesse sobreviver em pleno século 21. Contudo em algumas organizações há uma dicotomia. De um lado uma luta feroz pelo resultado, para construir uma reputação, desbancar a concorrência e perseguir um diferencial competitivo. De outro a estrutura organizacional se assemelha ao feudalismo. Os chefes agem como verdadeiros senhores feudais e se mantém na hierarquia não por suas qualidades gerenciais, mas por sua fidelidade irretocável ao suserano. Estão sempre atentos para as ordens imanadas de cima, e no mais das vezes perdem muito tempo tentando adivinhar o que o suserano contemporâneo pensa para antecipar a sua ação. Obediência é o atributo mais eficaz para se manter no cargo, e é preciso demonstrar sempre. Essa estrutura ora lembra o feudalismo, ora uma organização eclesiástica ou militar. Aos vassalos não se exige que pensem, apenas que cumpram as ordens sem contestar. Um acinte quando comparada a corporações dinâmicas que estimulam a participação de seus quadros. A sobrevivência desse modelo em plena era do conhecimento, da tecnologia e das transformações profundas do capitalismo é uma demonstração que essas organizações não terão vida longa. Nada se sustenta mais no mundo da comunicação compartilhada e da capilarização de informações, noticias e críticas a modelos ultrapassados. 

O suserano atual ainda tenta manter o seu grupo de vassalos isolados de outros departamentos da empresa. Teme a contaminação e a circulação de ideais que possam atrapalhar o seu feudo. Cada chefe cuida do seu pedaço da empresa.  Assim os vassalos tem que demonstrar que estão totalmente dedicados ao que estão fazendo. São impedidos de tomar decisões, discutir as capacidades e limitações de cada um. Há um só julgamento no grupo, o do chefe suserano. Todos trabalham no mesmo espaço físico, mas não se envolvem, não há um workteam. Portanto, o comprometimento desejável é a fidelidade, não a convicção que se está construindo alguma coisa. As pessoas devem estar focadas em obedecer os limites impostos pela chefia, não se arriscar a nenhuma atitude sem prévia autorização, e adaptar-se a isso é o melhor remédio. O vassalo deve demonstrar humildade sempre, ser adaptável a novas tarefas sem contestar, ser colaborativo, prestativo e sorridente mesmo em situações adversas. Essas duas realidades, teoricamente, não poderiam coexistir nas organizações atuais, mas é só fazer uma pesquisa e se vai descobrir que muitas adotam esse sistema gerencial. É verdade que as empresas, pela sua própria natureza, não são democráticas, mas não precisa ressuscitar o cadáver feudal.