Área de Conhecimento

Nesta secção há o compartilhamento de artigos, textos, opiniões e ideias sobre assuntos que envolvem a nossa sociedade como um todo de forma a permitir o desenvolvimento de uma opinião crítica principalmente sobre situações que envolvem o nosso dia a dia, não apenas como pessoas, em nossas relações mais próximas, bem como aquelas interações profissionais.

O sol pertence aos que mergulham ao fundo e não aos que permanecem no raso.

Quando criança, juntamente com alguns dos meus primos, era frequentador do Clube de Engenharia de Fortaleza, por conta do meu tio Silvio. Localizado perto da praia, a presença das piscinas nos atraía mais que as ondas alencarinas. Lembro que havia duas delas, uma retangular, enorme e funda, com várias mesas ao seu redor, para os adultos e outra oval, bem menor e rasa destinada para as crianças, sem coisa alguma sequer próxima dela. Recordo também que para pedirmos algo para comer ou beber, teríamos que ir até uma das mesas. Na época, do alto dos meus poucos anos de idade, cheguei a pensar que havia alguma questão técnica que explicasse esta necessidade: os pedidos precisavam estar vinculados a uma mesa. Ledo engano. Certa vez me sentei em uma cadeira perto da piscina dos adultos e, ainda que não houvesse qualquer mesa próxima, o garçon veio em minha direção e perguntou: “Você precisa de algo?” Todo pimposo respondi: “Não obrigado estou apenas tomando sol”. Dentro de minha lógica infantil, veio a conclusão: “os garçons só dão atenção aos que frequentam a ‘piscina funda’, já aos usuários da ‘rasa’, há pouco a ser feito”. Ainda que metaforicamente falando sobre adultos e crianças, após algum tempo, esta linha de pensar voltou a vir à tona, sobretudo por conta de uma realidade difusa muito presente no mundo corporativo. 

Ao longo de algumas décadas de muito estudo, leitura e trabalho árduo, creio que tenha conseguido compreender plenamente o quanto estamos sempre aprendendo. Acredito que a partir do momento que, ainda que brevemente, passar pelas nossas cabeças que já ‘somos os caras’, isto irá significar que coisa alguma sabemos. Talvez por isso a plena vigilância. Cabe ressaltar que entendo que esta crença não tenha qualquer relação com humildade, o reconhecimento de suas próprias limitações e fraquezas, mas sim com a sapiência de sempre estarmos abertos para ouvir e evoluir. De qualquer forma, há um breve estalo a ser considerado. Quando sabedores de nosso conhecimento e/ou cientes de nossa competência em aplicá-lo é salutar que possamos nos colocar como instrumentos em prol de sua propagação. Apenas o investimento cultural, seja explícito ou tácito, nos permitirá ter alguma profundidade à respeito de temas sobre os quais pretendemos arguir. Por outro lado se nosso entendimento for raso, e bem sabemos quando o é, assumir este papel não é apenas uma apedeudice mas quase um estelionato intelectual. Vamos aos fatos.

Me causa certa espécie a frequência com que importantes conceitos corporativos têm sido propagados de forma equívocada e porque não dizer leviana. Cabem alguns exemplos pontuais. Ao ler sobre inovação, me canso de ver “especialistas” afirmarem que ‘precisamos ser disruptivos’. Os argumentos comumente utilizados reforçam que certamente muitos deles sequer sabem os conceitos básicos ditados por Clayton Christensen, o responsável pela criação da teoria de Inovação Disruptiva. Segundo o próprio Christensen, nem sempre seremos disruptivos, aliás, poucos assim serão. E melhor sequer avançarmos nos erros conceituais propagados. Outro exemplo ocorre quando o tema está relacionado à lições aprendidas. Sempre há certos que gostam de afirmar ser essencial que ao final de um projeto as pessoas se reúnam para identificá-las. Costumo respeitar a opinião de outrem, mesmo quando muito equívocada, no entanto é impossível deixar de resgatar o conceito básico de aprendizado, desde antes dos tempos da cartilha Caminho Suave, que diz respeito ao fato dele demandar a oportunidade de colocar em prática o que nos foi ensinado. Sendo assim, só podemos falar em lições aprendidas quando passamos a considerar ou a usar o que nos foi passado e/ou vivenciado. Por fim, sem querer ser o sabichão de plantão, ainda que assim o pareça, como deixar de destacar Peter Drucker, o pai da administração moderna, que ressaltou desde os anos 1970, que o diferencial competitivo dos colaboradores do século XXI seria ser o ‘trabalhador do conhecimento’, instrumento disseminador deste. Um pleno contraponto de muitos que ao lerem rasamente sobre o decantado mundo VUCA, cujas iniciais apresentam suas características, volatilidade, incerteza (do inglês uncertainty), complexidade e ambiguidade passam a disseminar aos quatro cantos com ares de grandes pensadores que a nova ordem mundial corporativa passou a ser ‘não planejar’. 

Se durante a infância o garçon cearense me fez enxergar, mesmo dentro de um contexto bem distinto, que maior atenção tenha que ser dada aqueles que mergulham ao fundo e não aos que permanecem no raso, ao que parece os dias atuais têm nos trazido uma outra realidade. Que possamos ser instrumentos inquietos em prol do fortalecimento da profundidade do conhecimento. Eu acredito.