Área de Conhecimento

Nesta secção há o compartilhamento de artigos, textos, opiniões e ideias sobre assuntos que envolvem a nossa sociedade como um todo de forma a permitir o desenvolvimento de uma opinião crítica principalmente sobre situações que envolvem o nosso dia a dia, não apenas como pessoas, em nossas relações mais próximas, bem como aquelas interações profissionais.

Machismo, uma diretriz que persiste no mundo corporativo

Já faz algumas semanas estava em certa empresa participando de uma reunião sobre planejamento estratégico. Por se tratar de um encontro voltado para definição de algumas diretrizes, entendeu-se que, naquele momento, os participantes seriam apenas os gestores das equipes responsáveis pelo desenvolvimento das ações. Entre os 12 presentes, havia apenas um homem, todas as demais gestoras eram mulheres. Devo confessar que o mero registro desse tipo de situação pode sugerir algum tipo de conotação machista, mas, ainda assim, prefiro arriscar e destacar esta maciça presença feminina. Ao longo de tantos anos no mercado certamente é evidente a forma como as mulheres, de forma devida e justa, têm ocupado os cargos de gestão em tantas organizações. No entanto, lamento que ainda sejam exceções. Estudos recentes indicam que, no Brasil, apenas 15% dos cargos de liderança nas empresas são ocupados por mulheres. A média mundial, ainda que superior, também é baixa, por volta de 19%. Mas o pior ainda está no dia a dia.

Cerca de 20 dias atrás, outra importante instituição brasileira promoveu uma convenção de vendas em uma cidade no interior de São Paulo. Durante o final de semana, uma série de atividades e palestras contou com a participação de dezenas de colaboradores. Em certo momento, um registro inusitado. O gerente de uma importante unidade de negócio foi flagrado aos beijos, para não ser mais detalhista, com uma estagiária. A sensação de normalidade do dia seguinte contrariava com a rapidez com a qual a notícia se propagou diante os olhares, supostamente, assustados de todos os presentes. O gerente andava com naturalidade ímpar e um sorriso tranquilo no meio de sua equipe. Já a estagiária tinha sido vista apenas durante o café da manhã, ao lado de outras duas colegas. O notório desconforto evidenciava que caberia alguma ação por parte da alta direção. O silêncio parecia enlutar o ambiente.

Ao final da manhã da segunda-feira seguinte, um comunicado interno encaminhado por e-mail informou que o tal gerente estava sendo transferido de São Paulo para Minas Gerais, onde passaria a gerir uma unidade de negócio menor que a sua de origem. Impossível não associar tal surpreendente mudança ao que ocorrera durante o final de semana. Enfim, uma ação havia sido tomada. E quanto a estagiária? Soube-se que a mesma fora demitida ainda durante o trajeto de ônibus na volta do hotel no final do domingo. Ainda embasbacado com a notícia, ainda ‘precisei’ ouvir: “... mas fique tranquilo, a gerente de recursos humanos a levou para a fileira final do ônibus, isto é, houve total sigilo para que não fosse feito nada em público...” Como se não bastasse, ela ainda finalizou: “...a menina teve sua privacidade conservada...”

Os exemplos que vivenciamos em nossas vidas costumam nos alertar para muitas situações. Às vezes chegam a pautar a forma como devemos agir em tantas ocasiões. Se contrapor ao machismo não é colocar o homem abaixo de qualquer pessoa de outro gênero. Mas sim, ir em direção da igualdade plena de direitos entre os gêneros, ainda que tenhamos que considerar as muitas diferenças fisiológicas existentes. Em tempos de tanta volatilidade, quando, apenas para citar como exemplo, o aplicativo ‘pokemon’ demorou apenas 22 dias para alcançar 50 milhões de seguidores, alvo que o rádio alcançou depois de 38 anos de idade, chega a ser desesperador que não tenhamos evoluído mentalmente não somente para sermos contrários ao machismo, mas elementos efetivos que agem contra sua permanência como diretriz mestra de nossa sociedade. 

Como diria Martin Luther King: “O que me preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons”.