Área de Conhecimento

Nesta secção há o compartilhamento de artigos, textos, opiniões e ideias sobre assuntos que envolvem a nossa sociedade como um todo de forma a permitir o desenvolvimento de uma opinião crítica principalmente sobre situações que envolvem o nosso dia a dia, não apenas como pessoas, em nossas relações mais próximas, bem como aquelas interações profissionais.

John Mills, o pai dos historiadores de futebol

Tão logo passei a me interessar pela história do futebol brasileiro, o primeiro nome que me veio à mente foi o de Charles Miller, esportista brasileiro reconhecido por ser o introdutor do esporte, assim como foi do rugby, em nosso país. Este fato me levou a comprar a edição de sua biografia “Charles William Miller 1894–1994”, publicada em 1996. O texto interessante, fruto de uma pesquisa dedicada e esclarecedora, logo me fez fã do autor, ‘um tal de’ John Mills. Em seu texto, Mills destacou a importância de Charles Miller que ao voltar da Inglaterra, onde fora estudar, trouxera bolas e um livro de regras, fato que contribuiu para que o futebol passasse a ser jogado no país segundo as regras oficiais. Cabe lembrar que antes disso, as partidas tinham apenas carater lúdico e, às vezes, sequer contavam com 11 jogadores de cada lado, tampouco traves. Em 14 de abril de 1895, Charles Miller ajudou a organizar, e atuou na vitória de sua equipe, o São Paulo Railway, por 4 a 2 frente a The Gas Company, naquele que é considerado primeiro jogo oficial de futebol no Brasil.

Passaram alguns anos, até que em meados de 2005, tivesse a oportunidade de conhecê-lo pessoalmente. Foi na sede do Clube Atlético São Paulo, o conhecido SPAC (São Paulo Athletic Club), durante o lançamento da segunda edição do livro de sua autoria, agora chamado, “Charles Miller — o pai do futebol brasileiro”. Confesso que estava muito ansioso e quando me deparei com aquele senhor pequenino em estatura mas com um sorriso maior do mundo, me derreti completamente. Era tanta gente na fila que resumi a falar o quanto gostara de seu primeiro livro. Ele agradeceu e me fez a seguinte dedicatória “José Renato, espero que goste desta história “romântica” do football”.

Nossa proximidade foi natural e para mim um presente. A partir de 2011 a amizade se intensificou. Contando com a presença de um amigo em comum, Marcelo Unti, passamos a marcar almoços esporádicos na região do centro da cidade de São Paulo e/ou do próprio ‘Clube dos Ingleses’, como é chamada a sede do SPAC. Foi neste tempo, mais precisamente em 2012, que tivemos a oportunidade de trabalharmos junto ao então vereador Floriano Pesaro, na criação da lei municipal 15.522/12 que instituiu 24 de novembro como o “Dia em Memória do Futebol Brasileiro”, e definiu os marcos do futebol brasileiro na capital paulista, entre eles a sede do SPAC, o clube de Charles Miller, fundado em 13 de maio de 1888, e primeiro campeão de uma competição de futebol disputada no Brasil, o campeonato paulista de 1902. Foi nesta época que fiquei sabendo de outras de suas facetas. Assim como seu biografado, John Mills também atuou como atleta no Clube Atlético São Paulo, sendo seu capitão por mais tempo até que o próprio Charles Miller. Em 1988, teve importante papel em prol da vinda da equipe inglesa do Corinthian-Casuals Football Club para jogar diante o clube que acabou por adotar seu nome, o Sport Club Corinthians Paulista, outra paixão de Mills, em partida que chegou a ser transmitida para todo o Brasil.

Radicado no Brasil em 1969, Mills era espanhol de Vigo, filho de pai inglês e mãe basca. Esta origem única fez seu coração de torcedor se dividir em quatro, além do Corinthians, Arsenal, Athletic Bilbao (cujo avô foi um dos fundadores) e Juventus de Turim. Conversar com ‘Seo’ Mills era, verdadeiramente, viajar pela história. Sua voz mansa e narrativa detalhada sobre os fatos que vivera, ou que estudara, me dava um orgulho único de poder contar com sua amizade. Por saber que eu também era torcedor do Ceará, “…apesar de são-paulino” como ele costumava ressaltar, às vezes, me enviava mensagens de apoio ao Vozão. 

Em julho deste ano, pude encontrá-lo pela última vez, durante um almoço. Assim como fora da primeira vez que o vi, ele me presenteou com um livro sobre o São Paulo Athletic Club e escreveu na dedicatória: “Renato, uma lembrança do SPAC, abraços”.

‘Seo’ Mills partiu para o andar de cima neste último dia 24 de dezembro, véspera de Natal.