Área de Conhecimento

Nesta secção há o compartilhamento de artigos, textos, opiniões e ideias sobre assuntos que envolvem a nossa sociedade como um todo de forma a permitir o desenvolvimento de uma opinião crítica principalmente sobre situações que envolvem o nosso dia a dia, não apenas como pessoas, em nossas relações mais próximas, bem como aquelas interações profissionais.

Figurinha repetida não completa álbum

Cientes de nosso crescimento pessoal ou profissional, muitos tendemos a abraçar companheiros, colegas e amigos ao longo das várias jornadas traçadas. Contaminados pelas mais variadas essências, às vezes temos a dificuldade de entender a chegada dos limites do efeito positivo de tantos destes em nossas vidas. Mais que desapegar é salutar que saibamos identificar o momento certo de deixarmos ao longo de nossos caminhos certas pedras, importantes em alguns momentos no passado, mas que se tornaram apenas pesadas para os próximos passos.

Após alguns anos de um relacionamento que sempre foi pautado por muito amor e querer bem, eis que, para a surpresa plena de familiares e amigos que acreditavam em um próximo enlace matrimonial, Maria decidiu dar fim aquele noivado. Não por um motivo específico mas pelo conjunto da obra, a decisão solitária lhe permitiria, um novo alento. Estar disponível para conhecer novas pessoas, parecia ser uma boa razão daquilo tudo. Na verdade, ser um espírito livre talvez fosse a maior delas. Ela o é. Ainda assim, foi duro ignorar a pressão que tende abraçar as balzaquianas. Dona de si, naquele momento, ela foi, mais que nunca, ela própria: “Muito prazer” para aqueles que não a entenderam. Tirar João de sua rotina seria um grande desafio, mas bons avanços foram dados. Poucos meses se passaram, até que eventual dissabor em querer começar um novo caminho a fez acreditar que seria oportuno voltar a reviver o que já fora sentido. De nada adiantou ela mesma ter afirmado a João: “Já foi tão díficil te tirar da minha vida...” A substituição do “o amor venceu...” não chegou a ser apenas um clichê, mas uma bisonha e rasa justificativa para abraçar de volta o que não mais pertencia a nenhum deles. Ainda que juntos novamente, nada voltou a ser como antes. O medo pareceu ser a faísca dessa ignição e dentro desse espectro, a preferência por não se permitir alçar novos voos. Mera especulação.

Já a saída de Pedro para um concorrente foi vista como uma grande perda para a empresa, afinal ele desenvolvera uma sólida carreira, desde que saíra da universidade para ingressar na área comercial daquela multinacional. O bom trabalho sempre fora motivo de elogios, bem como os resultados trazidos. No entanto, naquele momento de sua carreira, a proposta financeira e a oportunidade de atuar em novas frentes foram decisivas. Ele sempre mostrou querer mais. Os desafios seriam gigantescos, assim como as expectativas. Os primeiros meses não demoraram a presenteá-lo com muitos aprendizados e os primeiros obstáculos não tardaram a ser vencidos. Mais um pouco, mares mais agitados o fez saudoso por aqueles mais cautelosos. O temor é o maior inimigo que podemos ter ao nosso lado. Durante uma importante convenção, um breve arrepio passou por sua espinha, como se fosse um sinal de alerta. Ao sair do espaço, no caminho para tomar um café, acabou por se esbarrar com seu antigo chefe. O convite para acompanhá-lo a tomar um café pareceu vir como uma oportunidade. O caminho de volta estava em sua mente. O retorno à antiga casa fora visto como uma decisão certa segundo a asquerosa sugestão: “Não se deve trocar o certo pelo duvidoso”. Foi muito bem recebido por seu antigos, agora novamente atuais, colegas, para enfrentar os velhos desafios de sempre. Não demorou para que o marasmo daquela paisagem não voltasse a o empanturrar. Nada foi como antes. Jamais o será.

Às vezes tão fácil comentar e ao mesmo tempo tão difícil de compreender quando por nós vividas, estas situações parecem ter em comum uma verdade absoluta, que uma vez abraçada poderia embasar a tomada da melhor decisão. Ao questionar meu sobrinho sobre o motivo de seus lamentos após abrir um pacote de figurinhas do álbum da Copa do Mundo, ele me explicitou esta verdade: “Figurinha repetida não completará o meu álbum”.  Ou completa?