Área de Conhecimento

Nesta secção há o compartilhamento de artigos, textos, opiniões e ideias sobre assuntos que envolvem a nossa sociedade como um todo de forma a permitir o desenvolvimento de uma opinião crítica principalmente sobre situações que envolvem o nosso dia a dia, não apenas como pessoas, em nossas relações mais próximas, bem como aquelas interações profissionais.

Excelência aos Clientes, cases na Igreja Católica

Ainda que dentro de um estado laico, aquele considerado oficialmente imparcial em relação as questões religiosas, o fato de, historicamente, o catolicismo estar muito presente junto a grande maioria da população, o que fez do Brasil o maior país católico do mundo, em números absolutos de fieis, contribuiu para que a condição default de muitas crianças nascidas em nosso território fosse optar por esta orientação religiosa. Associada a uma estratégia expansionista marcada, principalmente, pela presença de igrejas, seja de qual tamanho fosse, em qualquer pequeno vilarejo deste país continental, a proximidade com o estado, fortaleceu ainda mais esta primazia católica. Eram tempos em que as igrejas mantinham suas portas abertas ao longo de todo dia, e noite, servindo de abrigos permanentes aqueles que buscavam a força da oração bem como fugir do abandono das ruas. Como consequência disso, também os padres costumavam gozar de um grande poder tácito junto a comunidade, exercendo sobre seus membros uma grande influência.

Já nos bancos de nossas escolas, sempre houve a notória preocupação em informar que quatro dias depois do descobrimento do país, em 26 de abril de 1500, fora celebrada a primeira missa no terrítório brasileiro. Pero Vaz de Caminha exaltou em sua famosa carta a Dom Manuel, então Rei de Portugal, a forma pacífica como os selvagens locais, os indios, se portaram durante sua realização. A religião foi muito utilizada como forma de colonização. Apesar dessa presença tão intensa desde o início de nosso país, apenas em 1980, quase quinhentos anos depois do descobrimento, a maior autoridade católica do mundo beijou nosso solo, através dos lábios do Papa João Paulo II, mais precisamente no dia 30 de junho daquele ano.

Um dos motivos desta visita trazia as claras uma questão que já havia sido notada pelo alto comando do Vaticano, a diminuição do catolicismo no país. O afastamento da presença da igreja junto ao poder constituído em nosso país, a ditadura militar, notada por conta da aproximação, ainda que tímida,  de muitos de seus seguidores aos movimentos esquerdistas em crescimento no final dos anos 1970 e a expansão de uma nova onda pentecostal, com a criação de novas igrejas, com forte apelo popular com o uso de uma linguagem muito simplória e de fácil entendimento, cujos seguidores passaram a ser auto intitular, evangélicos, tiveram grande impacto neste novo cenário. Talvez alguns movimentos ligados ao catolicismo tenham minimizado a ‘fuga’ de seus fieis e ainda que o sopro promissor trazido pela visita do papa peregrino, como ficou conhecido o polonês João Paulo II, tenha sido marcante, durante anos poucas mudanças foram notadas em prol da recuperação deste relacionamento junto aos fieis, ainda que a fase dos ‘padres cantores’ tenha sido um alento junto a este objetivo.

Ao que parece, os novos ares trazidos pelo Papa Francisco, nosso ‘hermano’ jesuíta, eleito em 13 de março de 2013,  trouxeram para o catolicismo uma nova forma de lidar com seus fieis. O notório estreitamento neste relacionamento está muito ligado, também a uma preocupação presente em todo segmento presente no atual mercado corporativo, a melhoria no atendimento aos seus clientes. Sim, os fieis somos clientes. Este movimento é claro e facilmente notado em pequenos, mas, marcantes, atos.

Cerca de alguns dias atrás, um grupo de empresários e estudantes goianos andávamos pelas ruas do tradicional bairro do Bixiga em São Paulo, conhecido por suas espetaculares cantinas italianas. Ao avistarmos a igreja de Nossa Senhora Achiropita, resolvemos entrar para visitar. Uma das mais belas igrejas da cidade, muito bem cuidada,  impressionou a todos. Após minutos de oração silenciosa, resolvemos sair. Já nos dirigíamos a uma cantina quando um simplório senhor atravessou a rua e perguntou ao grupo: “Vocês gostariam de conhecer um pouco mais sobre Nossa Senhora Achiropita?” Confesso que a surpresa da abordagem fez com que a resposta imediata fosse: “Claro que sim”. Nos dirigimos de volta à igreja. Foi quando descobrimos que aquele senhor tratava-se do paroco da igreja, o Padre Bocaz que logo sinalizou para que sentássemos nas primeiras cadeiras. Antes de iniciar, ainda comentou aos fieis que ali estavam a espera do começo da missa: “Irmãos, trouxe estes meus amigos de Goiânia para que conversássemos sobre a Nossa Senhora, daqui a pouco começaremos a missa, peço que me ajudem neste bate papo”. Boquiabertos e com coração cheio de amor ouvimos aquela comunidade compartilhar deliciosas histórias. Ao final, Padre Bocaz nos abençoou e arrematou, em meio a gostosa risada: “Agora, vão comer, que vou começar a missa”.

Muito mais que uma experiência única e bem simples, a atenção e amor dispensados pelo paroco mostram o quanto a igreja católica tem buscado se reaproximar das pessoas. Trazê-las, literalmente, de volta. Algo tão importante, sobretudo em tempos tão sombrios. Fato isolado? Não. Dias depois, ao chegar muito antecipado, em reunião agendada para às 8:00 no centro de São Paulo, resolvi esperar o tempo passar dentro da bela igreja de São Bento. Repleto de pessoas, fui presenteado com uma missa “pocket”, que acontece, diariamente, a partir das 7:00 e que se encerra por volta das 7:30 de forma a não atrasar qualquer um dos fieis que costuma “bater o ponto” a partir das 8:00.

Pois é, o cliente parece, mais que nunca, estar em primeiro lugar...também na igreja católica.