Área de Conhecimento

Nesta secção há o compartilhamento de artigos, textos, opiniões e ideias sobre assuntos que envolvem a nossa sociedade como um todo de forma a permitir o desenvolvimento de uma opinião crítica principalmente sobre situações que envolvem o nosso dia a dia, não apenas como pessoas, em nossas relações mais próximas, bem como aquelas interações profissionais.

Desafiar é o primeiro passo para avançarmos rumo a qualquer propósito

 O esporte sempre esteve muito presente em minha família. Não por acaso muitos dos meus ancestrais estiveram envolvidos com a fundação de várias entidades e clubes esportivos desde o princípio do século XX. Minha infância foi marcada por dias a fio jogando bola pelas ruas repletas de paralelepípedos na cidade de São Paulo e nos terrões duros pelo sol do sítio dos meus avós em Fortaleza. No entanto, não demorou para que a vida de estudante de engenharia seguida por anos repletos de viagens à trabalho contribuíssem para que o esporte fosse relegado a uma importância secundária. Um equívoco lamentável.

Apenas no final do ano de 2003, tratei de agir para consertar este erro, ao passar a praticar a corrida de rua. Orientado por amigos corredores, providenciei a compra de um par de tênis adequado e logo, pronação e supinação passaram a fazer parte do meu vocabulário. Tendo o Parque do Horto Florestal como cenário inicial, não demorou para que as ruas do bairro da Casa Verde passassem a compor os meus trajetos de corrida. Solitário e sem maiores orientações especializadas corria trechos de 5 km de distância. Após alguns meses defini certas metas, a maior delas disputar uma corrida. Elegi a corrida em homenagem aos 450 anos da cidade de São Paulo que aconteceria no começo de 2004. A distância de 10 km me assustou, pois jamais a tinha corrido, no entanto, incentivos suspeitos de amigos, tais como “quem corre 5, corre 10” serviram para me convencer a enfrentar este desafio. No dia 25 de janeiro, lá estava eu, próximo ao Parque do Ibirapuera, para a corrida. Meu objetivo maior era não parar ao longo de toda trajetória, conseguir correr o tempo todo. Minutos antes da partida, encontrei um amigo. Animado, ele logo me falou: “...que bom te encontrar, irei correr com você”. Mal sabia o significado daquela ‘ameaça’.

Certamente influenciado por sua presença ao meu lado, passei a correr segundo o seu ritmo, de alguém que já estava acostumado com provas de rua. Não demorou para que minha língua começasse a beijar o asfalto da Avenida 23 de Maio. Comecei a andar pouco antes do segundo quilômetro. Para mim, um papelão. Acabei a prova com uma mistura de alegria, por ter chegado ao fim, com uma boa dose de decepção por ter feito boa parte do percurso andando. No entanto, não esmoreci. Segui minha rotina de treino por alguns meses e cheguei a disputar várias outras corridas. Muitas delas com boas performances e cumprindo minha meta de ‘correr a prova toda’. Não demorou, no entanto, que os incomodos do joelho associados alguns outros do nervo ciático me afastassem das ruas por muitos anos. Substitui a corrida pela caminhada de rua, algo que passou a ser também minhas sessões de análise, momentos de reflexões e conversas com meu maior obstáculo, minha própria cabeça.

Em meados de 2018, quase 15 anos após minhas primeiras experiências nas corridas de rua, recebi de uma pessoa querida o desafio para participar de uma nova prova. Ela iria organizar uma corrida com três distâncias, 2km, 5km e 10 km na cidade cearense de Caucaia. Abracei aquilo como um obstáculo a ser superado e me inscrevi para a distância maior. Recomecei nova rotina de treinamentos. Fora de forma, sofri com muitas dores. A resultante da canelite, a maior delas. Ainda assim, ao longo de quatro meses passei a me aventurar ainda durante as madrugadas escuras pelas ruas do bairro onde moro. Enfrentando as dores e tomando cuidados para evitar contusões, fiz do meu novo par de tênis, meu amigo mais próximo. Durante minhas viagens, ele era o primeiro item a ser colocado na mala. Senti que iria conseguir terminar a prova, mas o desafio mesmo era correr durante toda a prova. Tão logo chegou a semana da corrida, resolvi reconhecer o percurso e, confesso, embora não houvesse grandes aclives, o sol intenso me deixou apreensivo. Dias antes, no entanto, outra ameaça voltou a me rondar. Um amigo me sinalizou que também iria correr e que ficaria ao meu lado ao longo de toda a prova. De imediato veio à minha mente o que acontecera em 2004 durante minha primeira corrida de rua. Foi com dor no coração que precisei ser explícito e talvez um pouco antipático ao pedir para que ele não me acompanhasse, que fizesse a sua corrida e me permitisse fazer a minha sozinho. Espero que tenha compreendido.

Eis que chegou o dia da corrida, 9 de setembro. Embora a largada estivesse marcada para às 6:30, o sol forte me deixou apreensivo e muito preocupado. Resolvi partir ao final do pelotão e me policiei para manter o mesmo ritmo que adotara durante os meus dias de treinamento. Confesso que o baixo tempo nos primeiros quilômetros me deixaram mais preocupado do que animado. Sabia que estava em um ritmo que não conseguiria manter. A presença de pontos de fornecimento de água foram essenciais, no entanto, confesso que entre o km 6 e 7, o sol estava me derretendo. Pensei em... não não não, nem pensar em parar. À minha frente vi uma moça parar. A peguei pelo braço e atrevidamente falei: “... nada disso, não pare agora, falta pouco...”. Mal sabia que na verdade estava falando também para mim. O último quilômetro pareceu ter a distância de uma maratona, ainda assim, a poucos metros da linha de chegada, ao ser ultrapassado, peguei energia não sei de onde, e retomei minha posição. Mera infatilidade, talvez o que me sustente. Era o fim do desafio, surpreendentemente com meu melhor tempo para a distância. “Apenas 10 Km” para alguns, já para mim muito mais que isso. Uma vitória particular comemorada com lágrimas solitárias que serviram para me provar que posso enfrentar e superar qualquer desafio que me impuser, basta que para isso, me dedique intensamente e acredite na conquista. Se eu posso...