Área de Conhecimento

Nesta secção há o compartilhamento de artigos, textos, opiniões e ideias sobre assuntos que envolvem a nossa sociedade como um todo de forma a permitir o desenvolvimento de uma opinião crítica principalmente sobre situações que envolvem o nosso dia a dia, não apenas como pessoas, em nossas relações mais próximas, bem como aquelas interações profissionais.

Contextualizando a Resiliência Corporativa

“Precisamos ser mais resilientes” foi a resposta dada por um renomado palestrante a um de seus ouvintes. Naquela oportunidade, o tema em voga estava relacionado com liderança corporativa. Diante olhares e ouvidos atentos, o gostinho de “quero mais” pareceu pairar no ar. Assim o rito se segue. De tempos em tempos novas necessidades ganham roupagem diferenciada e passam a serem indicadas como essenciais aqueles que desejamos evoluir em nossas vidas pessoais e profissionais. Lembro bem quando certa vez, um colega de trabalho mais experiente demonstrava muita impaciência durante seminário sobre assunto similar. Com certa rudez, ele arrematou: “Se todos buscarmos desenvolver características comuns a todas as pessoas, o que irá nos diferenciar um do outro? Para que alguém tenha um sucesso retumbante, sempre haverá aqueles que fracassarão. Não há qualquer caminho predeterminado por outrem a ser seguido”. Apesar de notar certa intolerância no discurso, entendo haver alguma lógica na linha de pensamento apresentada. Mais uma lembrança me veio. Em outra oportunidade, após destacar o tratamento respeitoso e profissional da atendente de uma cafeteria, cometi a gafe de explicitar à pessoa que me acompanhava: “Que pena ela estar trabalhando aqui apenas como atendente”. Ouvi de volta: “Que bom que ela está aqui sendo uma ótima atendente”. Com sorriso amarelo, não me furtei a concordar. Pautar o nível de sucesso profissional das pessoas por conta dos títulos e níveis hierárquicos definidos pelas corporações é um erro crasso. É acreditar que todos tenhamos partido do mesmo patamar bem como ignorar toda a dinâmica que permeia nossas vidas. Mas é quanto à tal resiliência?

 

Capacidade de retornar à forma original após ser submetido a qualquer deformação é o que define a propriedade chamada resiliência, presente em alguns corpos. Já sob o ponto de vista da psicologia, ela costuma ser entendida como a característica de saber se portar diante problemas, adaptando-se às mudanças e obstáculos apresentados, os superando de forma emocionalmente equilibrada. Ao notarmos que vivemos dentro de uma realidade marcada pelas mudanças, onde aquilo que ontem era de um jeito, hoje é desse e amanhã será de outro, podemos entender de maneira clara sua importância. Esta situação se torna mais complexa ao verificarmos que quanto maior a quantidade de informação sobre a qual temos acesso, mais difícil tem se tornado o nosso processo decisório. Uma verdade paradoxal. Quer mais uma? Se considerarmos que toda a experiência vivida, boa ou nem tanto, tem o poder potencial de registrar eventuais futuras lições aprendidas que poderão passar a definir novos padrões e maneiras de conduta em nosso modo de agir, é possível afirmar que jamais voltaremos ao formato original. Ao darmos uma mera volta ao redor de um jardim e nos depararmos com um belo beija-flor, nosso próximo passeio ao mesmo local não será o mesmo. Diante disso não seria de todo errado, ao tomarmos como base seu conceito básico, afirmar que resiliência para as pessoas é uma mera lenda, evidenciado pelo mantra “Nada voltará a ser como antes.”

 

De qualquer forma, uma breve análise sobre temas que suportam a resiliência no mundo corporativo nos permite identificar importantes aspectos a serem considerados por aqueles que desejamos desenvolver esta característica. Um deles diz respeito a habilidade de mantermos o controle diante situações de maior estresse. Administrar nossas emoções e saber utilizá-las de forma inteligente é uma questão fundamental. Afinal haverá pouca valia se protagonizarmos momentos de maior ansiedade justamente quando temos à frente obstáculos que, potencialmente, poderão ser vencidos se agirmos com paciência, serenidade e equilíbrio. Da mesma forma se entendermos a importância de vivermos situações em que a euforia e entusiasmo intensos serão os segredos para o sucesso. Sendo assim, ser resilientes não tem a ver com passividade na expressão de nossas emoções e ações e sim com o melhor uso de todos os sentimentos que decorrerão delas.

 

Vem daí outra questão importante que diz respeito também à intensidade. Sucesso algum pode ser entendido como um momento de extremo êxtase tampouco a maior das derrotas como um fracasso sem precedentes. Este entendimento nos permite rever uma conhecida parábola. Em outros tempos, havia um rei muito poderoso que tinha tudo na vida e ainda assim se sentia confuso. Ele acreditava que precisava de algo que o fizesse alegre quando estivesse triste e outro que o fizesse triste quando estivesse alegre. Seus conselheiros resolveram dar duas pequenas caixas, com mensagens em cada uma delas. A primeira delas poderia ser lida apenas em um momento de extrema tristeza. Já a segunda, em situação oposta, de grande alegria. O rei prometeu seguir o conselho. Um dia o país entrou em guerra e a população passou a enfrentar gravíssimos problemas. Em meio a uma situação de grande desolação, o rei resolveu abrir a primeira caixa para ler a mensagem que dizia “Isto passará”. De súbito o rei respirou fundo e desde então passou a ser um importante elemento em prol da recuperação de seu reino. Ao retornar vitorioso do conflito foi recepcionado com uma grande festa. A alegria era intensa e logo veio à lembrança de abrir a segunda caixa para ler a mensagem. Tamanha foi a sua surpresa ao ler, novamente, “Isto passará”. Enfim, em qualquer situação extrema, boa ou ruim, de prosperidade ou de dificuldades, em que as emoções parecem dominar tudo o que fazemos, lembrar que tudo é efêmero é agir com resiliência.

 

Reconhecer a relevância destas questões e se atentar à forma como devemos nos portar passa, no entanto, por uma premissa essencial e ainda mais especial, buscar a diferenciação. Apenas ela fará com que quaisquer de nossas mais destacadas características, até mesmo a citada resiliência, seja vista com o real valor sobre a qual somos merecedores.

 

Caso a se pensar.