Área de Conhecimento

Nesta secção há o compartilhamento de artigos, textos, opiniões e ideias sobre assuntos que envolvem a nossa sociedade como um todo de forma a permitir o desenvolvimento de uma opinião crítica principalmente sobre situações que envolvem o nosso dia a dia, não apenas como pessoas, em nossas relações mais próximas, bem como aquelas interações profissionais.

As guenguices que perpetuam o machismo nas corporações

 Termo utilizado, costumeiramente no nordeste do país, para definir mulher que oferece serviços sexuais com o próprio corpo, ‘guenga’ costuma ter outra chamada nas regiões localizadas na parte mais abaixo do mapa brasileiro, garota de programa e prostituta são algumas delas. Em todas elas, no entanto, uma palavrinha bem vulgar em comum, formada por 4 letras, sendo a primeira ‘p’. Oriundo de família com forte viés religioso, sobretudo católico, ressalto ter respeito às pessoas que desenvolvem esta atividade profissional. O livre arbítrio está à frente dos valores que abraçamos e isto pode ser legítimo, ainda mais pelo fato das necessidades emergentes definirem, muitas vezes, o caminho a ser seguido. Ainda assim, há questões a serem discutidas.

 

Frequentador, desde os anos 1980, de feiras, congressos e encontros corporativos, temo a persistência de uma prática machista que continua a se perpetuar sem que haja qualquer mínimo indicativo sequer de sua redução. Ao longo de inúmeros estandes e espaços de empresas é comum depararmos com mulheres belíssimas vestindo trajes exageradamente decotados e curtos cujo único objetivo é colocar em destaque explícito partes avantajadas de seus corpos. Sem qualquer viés machista que possa parecer vir à tona, uma vez que as meninas podem efetivamente gostar de se vestir desta maneira, me causa repulsa o fato delas serem colocadas como vasos de ornamentação. Na grande maioria das vezes, sequer sabem o nome da empresa que estão representando. Para isso, em certas ocasiões, há outra recepcionista, também uniformizada, mas com trajes bem mais comportados, treinada para falar sobre os produtos, indicar contatos e, até mesmo, dar orientações. Impossível deixar de admitir a obviedade do desejo sexual ainda ser utilizado como fortíssimo requisito para atrair o infantil e patético público masculino.

 

Ao conversar com uma delas, aliás uma bela jovem que se vestia de maneira, digamos, sóbria, ela me falou que, costumeiramente, em estandes maiores, há uma divisão. Parte é composta por recepcionistas, palavra dela, mais “suculentas”, enquanto a outra pelas “normalzinhas”. O cachê costuma variar sensivelmente. As mais “apetitosas”, também palavra dela, às vezes chegam a receber o triplo, para se exibirem, enquanto que “nós recebemos uma série de atividades e ganhamos o valor mínimo”. Ela ainda finalizou, em meio a um certo ar de lamentação, com um mantra: “Ué, quem mandou eu priorizar meus estudos em vez de focar na academia?” As histórias são muitas e ela prosseguiu. Certa vez ao receber o contato de uma agência, ela ficou bem animada ao saber que o cachê seria de R$ 500,00 por dia de evento para ficar no estande de uma grande empresa durante a famosa Feira do Automóvel que acontece em São Paulo. Chegando lá, ao ver o sumário traje que teria que vestir, preferiu deixar a oportunidade passar e aceitar bem menos da metade para atuar como recepcionista em um espaço menor. Para concluir, ela ressaltou que trabalhar em feiras é a forma digna que tem para se manter enquanto não consegue um emprego fixo na área de sua formação.

 

Reitero a legitimidade de escolha de cada uma dessas meninas. Como diria alguém: “cada um no seu quadrado”, no entanto não me permito deixar de destacar a forma como as organizações utilizam muitas delas apenas como um aperitivo sexual, como se fossem meramente “as guengas que estarão ali dispostas para provocar desejos” de um público. Será esta é a melhor estratégia? O mais paradoxal é saber que muitas das empresas que utilizam deste artifício, têm esta estratégia definida por mulheres, gestoras de suas áreas, muitas delas, as mesmas que inúmeras vezes se dizem vítimas de machismo no mundo corporativo e lutam, diariamente, em prol do empoderamento feminino. Lamento imaginar que a submissão ao machismo as tenha contaminado de tal forma a acreditar que tudo isto é normal e pode fazer parte de um patético teatro. Como diria Zé Ramalho: “Ê, ô, ô, vida de gado / Povo marcado, ê! / Povo feliz!”