Área de Conhecimento

Nesta secção há o compartilhamento de artigos, textos, opiniões e ideias sobre assuntos que envolvem a nossa sociedade como um todo de forma a permitir o desenvolvimento de uma opinião crítica principalmente sobre situações que envolvem o nosso dia a dia, não apenas como pessoas, em nossas relações mais próximas, bem como aquelas interações profissionais.

A criminosa juniorização na Engenharia & Construção

Outubro de 1997, recém contratado para trabalhar em uma grande empresa do segmento Engenharia & Construção, fui alocado para atuar em um projeto no interior paulista, próximo à cidade de Presidente Epitácio, cerca de 650 km da capital bandeirante. Minha missão na empresa era atuar na automação de equipamentos industriais e o primeiro deles seria uma usina de asfalto. Confesso que a forma como as matérias primas eram pesadas, na verdade a expressão certa é ‘dosadas’, era uma de minhas maiores preocupações. O uso de balanças antigas sem muita precisão era um grande chamariz para boa parte dos problemas. Naquele tempo os índices de rejeição de produto final na frente de serviço beirava os 30%, índice altíssimo que, certamente, gerava sensíveis reduções nos ganhos financeiros. Durante semanas, o grande desafio foi instalar um sistema mais eficiente de dosagem, com células de carga e uma atenção maior nos limites de aferição. Incansáveis tentativas propiciaram boa redução nos índices de perda para cerca de 22%, ainda assim, um valor altíssimo que continuava a gerar certa desconfiança por parte da gerência da obra. No meio de muitas discussões em busca da melhor solução para o problema, um dos encarregados pelo equipamento citou o nome de um colega de nome familiar, Luiz Gonzaga.

Fã do maior sanfoneiro de todos os tempos, muito por conta do meu pai, confesso que a curiosidade em conhecer o Luiz Gonzaga, “genérico” do meu ídolo, me invadiu plenamente, ainda mais pelo fato dele ser “cantado em prosa e verso” como um dos maiores especialistas em pavimentação do país. Um dos responsáveis por uma das melhores pistas de aeroportos da América, a do aeroporto de Cumbica, Luiz Gonzaga era um engenheiro experiente e muito embora não fosse daqueles que costumasse compartilhar seus conhecimentos com os demais colegas, não se furtava a quaisquer novos desafios profissionais. Eles pareciam atiçá-lo. Convidado a ir à obra, Luiz, inicialmente quis dar uma olhada geral em todo o processo de fabricação de pavimento, desde o armazenamento de agregados até os pontos de medição da temperatura do asfalto. Sem trocar muitas palavras e com certa cara de sabichão, tão logo observou a primeira carga de asfalto produzida naquele dia, afirmou: “O queimador está com problemas”. A convicção com que falou a todos assustou, mas também deixou uma certa dúvida no ar. Antes que houvesse tempo de qualquer comentário sobre seu diagnóstico ele complementou: “Os agregados não estão todos ‘pintados de preto’, muito possivelmente pelo fato de estarem úmidos. No entanto, não basta aumentar o ‘poder calorífico’ do queimador, pois isto poderá queimar o CAP, mas sim, fazer com que ele aqueça por igual todos os agregados. Deveremos reposicioná-lo de forma mais adequada, isto resolverá o problema.” Feitos os reparos, após uma semana os índices de perda tornaram-se ínfimos.

Veio o século XXI e com ele, muito por conta inicialmente do chamado “Bug do Milênio”, com a fatídica demanda inicial da mudança do número de caracteres do campo ‘ano’ o que gerou certa comoção naqueles tempos, veio também a necessidade de instalação de novos sistemas de tecnologia da informação para o gerenciamento de projetos. Em seguida veio a inserção de novas metodologias de gestão, muitas suportadas justamente pelos softwares e sistemas que passaram a ser utilizados para gerir quase todas as atividades da organização e, no caso da engenharia & construção, de seus projetos. Novas áreas inteiras foram criadas tendo em vista desenvolver as ‘famigeradas’ customizações que, via de regra, consumiam boa parte dos orçamentos previstos. Inegável que todo este movimento tenha contribuído para gerar melhor controle dos custos e sobretudo de muitos dos desperdícios tão presentes nos projetos, no entanto, o desejado aumento de rentabilidade não se fez presente. O aumento do número de players tornou muito mais acirrada a concorrência no mercado e com isso a redução de custo foi acompanhada por quase proporcional diminuição das receitas. Por exemplo, se antes, fazer 100 metros de pista poderia gerar uma receita de 2x, com o tempo apenas metade disso, x, seria conseguido. Ainda que a aplicação de novas tecnologias e metodologias construtivas mais eficientes tenham contribuído parcialmente para isso, é inegável notar que um fator que muito ajudou para isso diz respeito, paradoxalmente, as próprias qualificações disponíveis em boa parte dos atuais profissionais. Importante ressaltar que o conjunto de competências presentes em um colaborador é formado por conhecimentos formais, adquiridos de forma explícita através de cursos das mais diferentes abrangências e meios similares, e outros de natureza tácita, resultado do convívio diário com os temas relacionados, pessoas e entidades, o que permite a intensa troca de informações, opiniões e pontos de vista. Estes últimos são desenvolvidos muito por conta das experiências vividas, representadas metaforicamente pelos cabelos crisalhos e/ou pela ausência capilar em muitos profissionais.

Inadvertidamente muitas organizações do segmento de Engenharia & Construção trocaram o conhecimento técnico apurado de suas equipes mais experientes pela presença de gestores com firmes noções gerenciais, qualificações muito mais voltadas ao bom relacionamento com stakholders de toda a espécie, sobretudo clientes, fornecedores e parceiros e entendimentos rasteiros sobre tecnologia. Esta troca propiciou ganhos interessantes de gestão e a tão desejada redução de custo nas folhas de pagamento. No entanto, também trouxe consistente queda no nível da qualificação técnica de suas equipes, evidenciada pelo fato de quase todas as atividades do segmento serem assumidas como se fossem commodities, com baixo valor a ser agregado (menor riqueza percebida gera menor receita). Hoje em dia, boa parte dos gestores de grandes empresas desse ramo sequer sabe que para ir a uma obra devem calçar uma ‘botina’. Falar de manutenção então, às vezes, parece soar aos seus ouvidos como “obra mal feita”. Ano passado, durante um evento sobre inovação no segmento de construção, tive a oportunidade de ouvir o diretor de uma afamada empresa citar que sua organização foi considerada uma das mais inovadores do país, por conta, principalmente do, até então, inédito uso das redes sociais como forma de potencializar as vendas de novos empreendimentos. Pois é, nada é por acaso.

Ainda que o mercado deva estar com as portas abertas para o novo em toda a abrangência que esta palavra mereça, a juniorização dos cargos gerenciais tem sido uma das maiores auto sabotagens que as empresas têm promovido nos últimos tempos. O resultado disso é notório e tem manchado a, outrora, ótima imagem que a engenharia sempre manteve em nosso país. Se aferirmos o número de acidentes em obras, resultados de desabamentos quer sejam em fase de construção e/ou de utilização, quando os serviços de manutenção devem se fazer ainda mais presentes, veremos um quadro de plena desolação. Parafraseando alguém, “nunca na história desse país”, tantas obras, literalmente, caíram. Ao que parece, vivemos em um cenário de espera de “ onde será o próximo” e, se Deus quiser, “que não haja mortos”.

Em tempo, que eu saiba Luiz Gonzaga já saiu dessa empresa faz alguns anos e, até hoje,  desenvolve atividades pontuais de consultoria, principalmente fora do país. Já o atual diretor de engenharia dessa organização, foi um dos responsáveis pela implantação de parte de um sistema de ERP de gestão de projetos na mesma.